A Anatomia Financeira de um Hit: O Caminho Completo do Dinheiro do Spotify ao Seu Bolso
Você já se perguntou para onde vai o dinheiro gerado por um único play no Spotify? É uma pergunta simples com uma resposta surpreendentemente complexa, e é nessa complexidade que a maior parte dos ganhos de um artista independente se perde.
Muitos veem o dinheiro que a distribuidora paga e pensam que é só isso. Mas essa é apenas uma parte da história – a ponta do iceberg. A verdade é que cada stream da sua música cria diferentes rios de dinheiro que fluem por caminhos distintos.
Meu nome é Rádio Moleque, e nos últimos anos, além de produzir, me dediquei a entender e navegar nesse sistema. O que vou compartilhar aqui não é teoria; é o mapa prático que separa os artistas que vivem da sua música daqueles que apenas sobrevivem. Esqueça o juridiquês. Vamos decifrar isso juntos, de uma vez por todas.
A Fundação: Separando a “Gravação” da “Composição”
Antes de tudo, entenda que sua música finalizada tem duas identidades legais:
O Fonograma (A Master): Pense nisso como o “produto final”. É o arquivo de áudio específico da sua música, com sua voz gravada sobre o meu beat. É a gravação.
A Obra Musical (A Composição): Pense nisso como a “propriedade intelectual”. É a combinação da Letra (sua criação) com a Música (o beat, minha criação). É a ideia.
Cada uma dessas identidades gera seu próprio tipo de dinheiro. É por isso que existem dois “potes” ou, como prefiro chamar, dois grandes rios financeiros.
Rio 1: O Dinheiro do Fonograma (O Caminho da Distribuidora)
Este é o fluxo de dinheiro mais conhecido. É o que você vê no painel da sua distribuidora (ONErpm, DistroKid, etc.).
O Caminho: O Spotify paga à sua distribuidora uma quantia por cada play da sua gravação (fonograma). A distribuidora fica com uma pequena porcentagem (a taxa de serviço dela) e te repassa o restante.
Quem Recebe: Nos contratos de leasing que ofereço, e que são o padrão do mercado profissional, 100% do dinheiro deste rio pertence a você, o artista. O valor que você pagou pela licença do beat te deu o direito de explorar comercialmente esta gravação específica.
Até aqui, tudo simples. A maioria dos artistas para por aqui e acredita que essa é toda a receita. Mas o maior potencial de ganho está no outro rio.
Rio 2: O Dinheiro da Obra Musical (O Caminho do Direito Autoral)
Este é o fluxo de dinheiro que o ECAD e as Editoras administram. Ele é gerado pelo uso da “propriedade intelectual” (a composição). E este rio, por sua vez, se divide em dois braços principais:
Braço A: Direitos de Execução Pública
O que é: Dinheiro gerado sempre que sua música é “executada publicamente”. Isso inclui tocar em rádios, na TV, em shows, em lojas e, sim, também nos streams do Spotify e YouTube.
O Caminho: No Brasil, o ECAD é o órgão central que arrecada esse dinheiro de todas essas fontes. Ele então repassa os valores para as associações de música (UBC, Abramus, Socinpro, etc.), que finalmente pagam os titulares dos direitos.
Quem Recebe: Aqui entra a nossa parceria. A divisão padrão da composição é 50% para a Música (eu, o produtor) e 50% para a Letra (você, o artista). Portanto, metade de todo o dinheiro de execução pública que o ECAD arrecada para sua música é minha por direito.
Braço B: Direitos Editoriais e Mecânicos da Obra
O que é: Este é o dinheiro mais “escondido” e onde a maior parte dos royalties se perde. São royalties gerados pela “reprodução” da composição, tanto digital (streams, downloads) quanto física.
O Caminho: Esse dinheiro não é coletado eficientemente pelo ECAD. Para buscar essa receita, especialmente de plays gerados fora do Brasil, você precisa de uma Editora Musical ou de um Administrador de Publishing (como a SongTrust, por exemplo).
Quem Recebe: A mesma divisão de 50/50 se aplica aqui. A Editora ou o Administrador coleta o valor total e o divide entre os donos da composição, de acordo com o cadastro da obra.
A Analogia Definitiva: A Franquia de Restaurante
Para solidificar a ideia, pense assim:
Eu, o Produtor, sou o dono da franquia (ex: McDonald’s). Eu criei a marca e a receita secreta do Big Mac (o beat).
Você, o Artista, é o franqueado. Você paga uma taxa (a licença de leasing) para ter o direito de abrir seu próprio restaurante e usar minha receita.
O Dinheiro do Rio 1 (Distribuidora) é o faturamento bruto do seu restaurante. É o dinheiro que você ganha vendendo os lanches. Depois de pagar os custos, o lucro é seu.
O Dinheiro do Rio 2 (Direito Autoral) são os royalties que você paga para a matriz pelo direito de usar a “receita secreta”. É uma porcentagem sobre o sucesso do negócio, que é paga para sempre, pois a receita continua sendo minha propriedade.
Seu Plano de Ação (Para Não Deixar Dinheiro na Mesa)
Filie-se a uma Associação: Escolha UMA associação (UBC é a mais comum para artistas) e faça seu cadastro completo como autor/compositor. É a partir dela que você receberá do ECAD.
Pegue os Dados do Produtor: Para cada beat que licenciar, peça os dados completos do produtor (Nome Completo, CPF, e o código IPI/CAE, que é a identidade dele na associação).
Cadastre a Obra Corretamente: Antes de cada lançamento, entre no portal da sua associação e registre a música (a “Obra Musical”), inserindo os nomes e as porcentagens corretas (ex: 50% para você na “Letra”, 50% para mim na “Música”).
Informe na Distribuidora: Ao subir o fonograma na sua distribuidora, haverá um campo para “compositores” ou “autores”. Preencha com os mesmos dados.
Considere um Administrador de Publishing: Pesquise sobre serviços como a SongTrust. Para um artista que está começando a ter streams relevantes, pode ser a diferença entre receber apenas uma parte do dinheiro ou a totalidade dele.
Conclusão
Ser um artista independente de verdade não é apenas sobre fazer música. É sobre ter o controle total da sua arte e do negócio que a cerca. Entender o fluxo do dinheiro te transforma de um simples músico em um empreendedor da sua própria carreira.
Quando você trabalha comigo, você está se associando a um produtor que não apenas entende esse sistema, mas que faz questão que você também entenda, para que nossa parceria seja transparente e lucrativa para ambos a longo prazo.
Agora você tem o mapa completo. Estude-o, siga os passos e vá buscar o que é seu por direito.



