Guia avançado para distribuir o seu som!

   Se você está lendo isso, provavelmente está em um de dois momentos: ou se sentindo perdido no labirinto que é a distribuição musical, ou buscando aprofundar seu conhecimento para lançar suas músicas com mais clareza.

  Quando falo isso não me refiro à uma ilusão ou visão distorcida da realidade de ser um artista, e sim um incentivo e orientação sob a perspectiva de organizar o fluxo da distribuição da sua música da melhor forma possível.

   Hoje em dia, qualquer um consegue colocar uma música no Spotify ou na Apple Music. O desafio é que nem todo mundo consegue colher os frutos disso. A frustração de “não passar de 1000 streams” ou “não saber como receber o dinheiro que é seu por direito” é muito real e comum.

   Distribuidoras como a CD Baby e a DistroKid facilitaram o processo, mas muitas vezes focam o suporte naquilo que é importante para elas. Como resultado, etapas essenciais do processo – desde a criação da música até a coleta dos seus ganhos – acabam sendo deixadas de lado.

   Eu escrevi este pequeno guia para te ensinar a extrair o máximo da distribuição musical. E sim, ele vai cobrir tudo isso e muito mais. Não vai ser uma leitura rápida, mas eu te garanto: se você busca um guia completo, pode encerrar sua busca na internet. As respostas que você procura, muito provavelmente, estão aqui.

Quem Sou Eu?

   Meu nome é Radio Moleque, sou produtor musical, designer e criador da Dispô!® . Nos últimos anos, tive o privilégio de estar no estúdio e nos bastidores com artistas como Bob 13, Teagacê, Gustavo GN, além de colaborar com projetos de mídia como o Canal Meu Timão e Salve Drew e produzir para nomes como Abdalla Beatz.

   Mesmo eu não sendo um nome famoso nem milionário do ramo, essa experiência me proporcionou uma visão 360 graus do corre. Eu entendi que para uma música ter um bom desempenho, a qualidade da produção, o entendimento do negócio e a estratégia de distribuição precisam andar de mãos dadas. Não podemos tratar a produção cultural de uma forma rígida ou meramente comercial, mas é sempre bom entender como funciona hoje este jogo.

O Que Você Vai Aprender Neste Guia

   Nosso objetivo é te ensinar tudo que você precisa saber para distribuir sua música nas plataformas. Isso inclui passos práticos para ganhar ouvintes, fãs e coletar a receita dos seus lançamentos.

Dividimos este guia em três partes para facilitar a jornada:

  • Parte 1 – O Lado Criativo: A base de tudo. A qualidade do seu produto.

  • Parte 2 – O Lado do Negócio: A parte que garante que você seja pago.

  • Parte 3 – A Distribuição na Prática: Colocando o som na pista.

   Recomendo que você salve esta página nos seus favoritos. Ela servirá como um mapa para cada novo lançamento que você fizer.


Parte 1: O Lado Criativo (A Base de Tudo)

   Pense nesta parte como “arrumar a casa antes de convidar as visitas”. O processo criativo de uma música tem quatro etapas principais: Composição, Gravação, Mixagem e Masterização. A atenção que você dá a cada uma delas impacta diretamente o sucesso da sua distribuição.

Etapa 1: A Composição e Estrutura

   A sua forma de escrever é a sua identidade. Não há certo ou errado aqui, dê asas para sua imaginação e criatividade genuina.

   Onde quero chamar sua atenção é no pós-escrita: a análise e a estruturação da sua música. Isso envolve rearranjar versos, refrões e pontes para prender a atenção do ouvinte. Quando escrevemos um livro não basta a história ser boa, ela precisa ser bem contada e que todos os capítulos façam sentido para o conjunto da obra. Na música não é diferente!

  • Seu refrão é a parte mais forte? Talvez valha a pena começar a música com ele.

  • A transição entre o verso e o refrão está fluida? O pré refrão está “chamando” o refrão como deveria?

   Isso se relaciona com a distribuição porque os algoritmos, especialmente do Spotify e YouTube, valorizam o tempo de retenção. Se as pessoas pulam sua música nos primeiros 15-30 segundos, a plataforma entende que seu som não é interessante e para de recomendá-lo. Não use essa informação para podar sua arte e sim em prol do seu corre.

   Analise as músicas de sucesso no seu estilo. Você verá padrões: versos de 12 a 16 barras, refrões que se repetem, etc. Músicas hoje são mais curtas (média de 2:30 min) para aumentar a rotação em playlists e gerar mais streams. Estrutura não é prender a arte, é otimizá-la para o ouvinte de hoje.

Etapa 2: A Gravação (Técnica e Criativa)

   Uma corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco. Na música, é a mesma coisa.    Uma gravação ruim não pode ser consertada 100% na mixagem. O famoso “o mágico da mix resolve” é um mito que limita o potencial de muitas músicas. Gravações que já começam ruins dificilmente se tornarão boas no final.

   A qualidade da sua gravação depende de:

  • Equipamento: Um bom microfone, uma boa interface, até mesmo um bom pop-filter.

  • Ambiente: Uma sala com tratamento acústico ou, no mínimo, sem eco e ruído de fundo.

  • Técnica: Distância correta do microfone, gravação sem “clipar” (sem o áudio estourar).

   Uma gravação vocal de alta qualidade é o que permite ao engenheiro de mixagem fazer seu melhor trabalho.

Etapa 3: A Mixagem

   Imagine ver uma foto incrível, mas só conseguir enxergar os tons de azul. Você perderia todos os outros detalhes. A mixagem é o que equilibra todas as “cores” da sua música.

   Uma mixagem profissional garante que sua voz não soe “enterrada” debaixo do instrumental. Cada elemento tem seu próprio espaço, e o ouvinte consegue perceber cada detalhe. É o que torna a experiência de ouvir sua música agradável e impactante. Contratar um bom profissional de mixagem é um dos melhores investimentos que você pode fazer.

Etapa 4: A Masterização

   Muitos confundem mixagem com masterização. São processos diferentes.

  • Mixagem: Trabalha com as pistas separadas (voz, bumbo, baixo, etc.) para equilibrá-las entre si.

  • Masterização: Trabalha com a música já mixada (um arquivo só) e a otimiza para que ela soe bem em qualquer sistema de som: do fone de ouvido do celular à caixa de som da balada.

   A masterização é a etapa final que deixa sua música no padrão da indústria. É um investimento necessário. É dela que saem os arquivos finais que você usará para a distribuição (WAV 24bit, MP3 320kbps, etc.).

Etapa 5: A Arte da Capa

   As pessoas “ouvem com os olhos” primeiro. Em uma playlist do Spotify, sua capa é a primeira coisa que o ouvinte vê. Se ela parecer amadora ou genérica, ele pode pular sua música sem nem mesmo dar o play.

   Invista em uma arte de capa que represente sua identidade visual e que seja atraente. Ela é seu cartão de visita e pode ser o diferencial para um curador de playlist ou um fã em potencial decidir clicar no seu som.

   Para ter dicas avançadas e completas sobre acústica, gravação e equipamentos para transformar o seu quarto em um homestudio, adquira aqui o ebook “Grave Agora”, um guia rápido e direto ao ponto para você começar suas primeiras gravações diretamente na sua casa.


Parte 2: O Lado do Negócio (A Hora de Ficar Sério)

   Com o seu “produto” (a música) finalizado com a máxima qualidade, é hora de cuidar da parte burocrática, talvez a mais chata desse processo, principalmente para nós que gostamos mais da parte criativa. Um estudo da Berklee College of Music estimou que de 20% a 50% dos pagamentos de música não chegam aos seus donos de direito. Por quê? Porque muitos artistas pulam as etapas a seguir.

Etapa 6: Direitos e Limitações da Sua Música

   Isso se aplica se você usa beats de produtores online. Se você criou 100% da sua música, pode pular esta parte.

  • Licenciamento de Beats: A maioria dos beats online são vendidos como Leasing. Isso significa que você tem uma permissão de uso, mas com limitações (de streams, de tempo, etc.). Verifique seu contrato. Se você ultrapassar os limites, pode ter sua música retirada do ar.

  • YouTube Content ID: Distribuidoras oferecem o serviço de registrar sua música no Content ID do YouTube para detectar usos não autorizados. NUNCA ative essa opção se você usou um beat licenciado de forma não-exclusiva. Apenas o dono do Master (geralmente o produtor) pode fazer isso. Ativar essa opção indevidamente pode te trazer sérios problemas.

 

Etapa 7: Direitos Autorais: Quem é Dono do Quê?

   Existem dois tipos de direitos sobre uma música:

  • Direitos da Composição (Autoral): Refere-se à letra e à melodia. Geralmente, é dividido em 50% para os Autores da Letra e 50% para os Autores da Música (o produtor do beat).

  • Direitos do Fonograma (Master): Refere-se à gravação específica da música. Quem financiou a gravação é o dono do Master. Se você licencia um beat (Leasing), você NÃO é o dono do Master. O produtor continua sendo. Se você compra os direitos exclusivos, você se torna o dono do Master. Saber disso é crucial.

Obs: Mesmo não sendo o dono da master (instrumental) você pode monetizar e colocar sua música (obra derivada do beat) em todas as plataformas.

Etapa 8 e 9: Arrecadando Seus Royalties (PROs e Editoras)

   Gerar streams e receber o dinheiro são duas coisas diferentes. O dinheiro é coletado por diferentes entidades. Para receber tudo que é seu, você precisa se afiliar a elas.

  • Direitos de Execução Pública (ECAD): No Brasil, quando sua música toca em rádios, shows, TV, etc., quem arrecada é o ECAD. Para receber, você precisa ser filiado a uma das associações que o compõem (UBC, Abramus, etc.). Pesquise e filie-se a uma delas.

  • Direitos Editoriais (Publishing): São outros tipos de royalties que as associações do ECAD não cobrem totalmente. Para coletar essa parte, você precisa de uma Editora Musical ou um Administrador de Publishing (como SongTrust, ou os serviços oferecidos por algumas distribuidoras).


Parte 3: A Distribuição (Colocando o Som na Pista)

   Com tudo isso organizado, você está pronto para distribuir sua música.

 

Etapa 10: Escolhendo sua Distribuidora

   As distribuidoras são a ponte entre você e as plataformas como Spotify e Apple Music. A escolha é importante, pois migrar seu catálogo para outra no futuro pode ser complicado.

   As mais populares no Brasil são:

  • Internacionais: CD Baby, DistroKid, TuneCore.

  • Com forte presença no Brasil: ONErpm, Tratore.

   Pesquise cada uma. Elas diferem em preços (taxa única vs. anuidade), serviços adicionais e suporte. Escolha a que melhor se alinha com suas necessidades.

   Uma dica: Não caia na conversa de usar várias distribuidoras para “espalhar o risco”. Se sua música for removida, geralmente é porque você não arrumou a “casa” como ensinamos na Parte 1 e 2. Tenha seus contratos, direitos e arquivos em ordem, e você não terá problemas.

Enviando Sua Música

   Ao se cadastrar em uma distribuidora, ela te guiará no processo de envio. Você precisará de todas as informações que já discutimos: nome da música, data, arte da capa, nomes dos compositores e suas porcentagens, etc. Como você já fez o dever de casa, este passo será muito mais fácil.

   O caminho é longo, mas com o mapa certo, a gente não se perde. Ter o controle sobre sua arte, seu negócio e sua distribuição é o que define o sucesso sustentável na nova indústria da música.

   Tamo junto nesse corre!

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